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quarta-feira, 5 de março de 2014

Carta para meu futuro filho

             
Querido filho,
               Espero que esteja bem, resolvi escrever uma carta do passado porque hoje li uma manchete assustadora e preciso garantir que os anos não me façam esquecer o pavor do momento. Não leia essa carta se tiver menos de 15 anos, não quero que se assuste tão cedo. Leia e comentarei no fim:
“Era uma vez um dia como mais um, um dia em que cada pessoa vive sua vida e assim a humanidade caminha em uma coletividade solitária. E seria apenas isso, mas não hoje. Uma manchete disse que um menino de 08 anos foi morto pelo pai, levou uma surra para aprender a virar homem. Aprender a virar homem. Virar homem. H o m e m. Ainda não descobri qual o maior foco de absurdo, se o aprender a virar homem ou se é um pai surrar um filho até a morte. Não soube o que dizer, e pensei em não dizer nada (que é o mais conveniente quando não se sabe o que falar), só que a manchete ainda está impregnada no ar, não consigo não lê-la na parede da sala, de sentir seu gosto na água. E não acho que seja ela quem deva se retirar. Não há motivo para esquecer a morte de uma criança, não há motivo nem para diminuir seu impacto. Precisa ser brutal, é preciso deixar ser brutal e avassaladora, e que fique ali em algum lugar da sua mente, para que você tema ainda mais a opressão de gênero que mata tantos humanos. É preciso sentir culpa, por fazer parte dessa humanidade que segura na mão de um pai que surra o filho para tornar a pancada mais forte. Gostaria que uma salva de palmas igualmente pesada em ironia fosse ouvida de dentro de todos que acreditar em “virar homem” (ou mulher), de todos que acreditam em um comportamento de mulher (ou de homem, ou de menina e menino), uma salva de palmas ensurdecedora, de interromper a respiração, de emudecer. Com toda a sinceridade que guardo para momentos de desespero: Opressores de gênero, eu tenho vergonha, nojo e raiva de todos vocês.”
               Filho, eu espero que meu eu do futuro tenha lhe educado bem, isto é, espero que você não seja um idiota. Mas mesmo que você seja quero lhe dizer umas coisas: Eu não vou me importar se você for gay, travesti, bicha louca ou qualquer coisa, porque eu vou amar e respeitar você. E não porque eu sou legal (espero que eu seja, aliás), mas sim porque isso não quer dizer absolutamente nada, suas preferências afetivas são apenas suas preferências afetivas. Agora, escuta aqui garoto, não seja um desses caras que bate no menino da escola porque ele “parece gay”, eu espero que você seja criado para entender que isso é horrível. Eu espero que você seja um militante contra a opressão de gênero, espero que respeite muito homens e mulheres. Lembra que eu lhe expliquei que todos aqueles valores machistas que vão lhe contar são grandes mentiras? Pois é, hora de usar todo seu ensinamento. Espero que saiba que não tem problema se sua amiga, prima, irmã, vizinha quiser jogar bola com você (mesmo se ela for flamenguista), espero que saiba que não é nada –nem um tiquinho- vergonhoso você gostar de brincar de boneca, enfim, você vai entender logo que não existem brinquedos de menina e de menino, brinque, brinque do que quiser e seja feliz, concentre-se nisso, ok?
               Se você estiver com uma garota, não pense – nem por um segundo- que ela é sua propriedade (se estiver com um garoto também), não sei direito o que mais lhe falar.
Provavelmente, você já deve ter percebido que mais que meramente tolerar, nós devemos respeitar os outros. R e s p e i t a r. Então, meu querido, saiba que as pessoas são diferentes, e isso não é problema nenhum,pelo contrário. E quando/se você tiver filhos lembre de respeitá-los também, crie suas crianças para que sejam felizes por serem quem são, por lutarem pelo que acreditam, e os crie em conjunto com a mãe deles (ou o outro pai, se for o caso), transmita muito amor, atenção e respeito. Lembre de tudo isso.
Não seja um cretino imbecil, com carinho ,

Liz

quinta-feira, 28 de março de 2013

Um cara descolado


Ouviu o alarme às 5:58 a.m; às 06:00 a.m levantou; às 06:15 a.m já estava se arrumando; como todos os dias, às 06:35 a.m fechou a porta e foi trabalhar. Como todos os dias, conferiu o nó da gravata no vidro do carro, pôs o sinto de segurança , conferiu duas vezes se vinha algum outro carro e foi pelo mesmo caminho, o mesmo de todos os dias. Parou na vaga de sempre (ele saia cedo para poder estacionar nela), chegou pontualmente 5 minutos antes, tempo certo para chegar e se organizar com calma. Fez seu serviço. Às 12:30 p.m parou para almoçar. Sentou na mesma mesa do restaurante, pediu um “seguro” prato executivo, e comeu feliz novamente. Voltou para o trabalho na hora certa. Continuou a fazer seu serviço. Às 17:05 p.m levantou-se para ir para casa, cumprimentou o porteiro, perguntou das crianças, se despediu e conferiu o nó da gravata no vidro do carro. Pôs o sinto de segurança e conferiu duas vezes de cada lado antes de seguir. Chegando em casa deu comida ao cachorro, leu 5 páginas de seu novo livro, assistiu a novela e ligou para sua mãe, “Tem se alimentado direitinho, Rodolfo?”. “Sim, mamãe, não se preocupe”. Fez alguns agradecimentos a qualquer divindade que ouvisse. Foi dormir com uma música suave.

Acordou às 07:30 a.m; ligou para a Fê às 08:00 a.m; ligou para a Ju às 08:10 a.m; ligou para a Rê às 08:15 a.m; pôs perfume, gel no cabelo, cueca de grife, tênis bombado, conferiu o topete em três espelhos . Passou na loja do pai às 09:30 a.m, deu algumas ordens aos funcionários, pegou dinheiro, às 10:36 a.m pediu uma cerveja na praia, Fê, Ju e Rê também quiseram. Às 14:00 p.m, fazia a terceira sequência de tríceps, conferiu os bíceps no espelho da academia e já ia esquecendo de conferir o topete quando ajeitou um fio de cabelo rebelde.Às 20:00 p.m postou trechos bíblicos no facebook, e agradeceu a Deus por inbox; às 20:30 p.m anunciou que #partia para uma festa. Às 21:00 p.m chegou na festa do Brother, às 22:00 p.m já tinha bebido , quantas doses mesmo? Não importava. Às 06:30 a.m dirigia bem rapidinho que era para impressionar a  Fê, a Ju e a Rê; às 06:34 a.m riam alto. Às 06:35 a.m ele furou o sinal vermelho; ainda às 06:35 a.m bateu no carro de Rodolfo.

 Fê, Ju e Rê se arranharam, mas já marcaram a cirurgia plástica.

 Ele vai ser processado, vai pagar um advogado metido a esperto e o pai vai pagar a multa. Dentre alguns dias, ele vai estar na praia pedindo uma cerveja, talvez não mais com a Fê, a Ju ou a Rê, porque as cicatrizes estragaram um pouco o rosto delas. Vai agradecer a todos os santos atualizando o status e xingar o moleque do sinal.

 Rodolfo não vai estacionar mais na mesma vaga, não vai sentar mais na mesma mesa, não pode mais conversar com o porteiro nem  vai dar comida a seu cachorro, não vai sair da página 33 do livro novo, não vai mais ver a novela e sua mãe não vai mais perguntar como ele está, a única coisa que ela quer saber agora é, por que? 

*   *   *   

ok, isso é só um texto que eu fiz, enquanto fugia dos trabalhos da faculdade. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Hipócritas

Sim, nós somos. E quando eu digo nós eu , obviamente, estou me incluindo nessa. Ai você se remexe na cadeira e pensa "É cada uma...eu? Hipócrita?!". Isso mesmo. E achar, pior, ter uma "pseudo" certeza de não ser hipócrita é , justamente o auge da hipocrisia. Eu poderia falar de como julgamos os outros de maneira premeditada (leia errada) , mas não estou nem ai para os outros. O que importa somos nós!

E você agora se remexe com maior impaciência, "hum...arrogante, prepotente". Apesar de ser horrível é engraçado, o mais bizarro é a maneira como nos julgamos. Como inflamos nossas certezas (que são afinal, mais certas do que as de todas as outras pessoas) e superestimamos nossos problemas (mas são os piores do mundo mesmo). Ninguém gosta de ser desmentido, ninguém gosta de racionalizar os fatos. Animais racionais racionalizando os fatos?! Oh não.... Porque se o fizermos vamos perceber que não sabemos de nada e que nossas dores são equivalentes a puxar um fio de cabelo de alguém que está com uma coluna de concreto quente atravessada no corpo e levando petelecos do Anderson Silva.

Lembra dos problemas que você tinha no clímax dos seus 7 anos? Pois ria-se deles agora, você rirá também dos problemas desse momento daqui a alguns ano, e assim sucessivamente. Até que 1) Não lhe restem problemas 2) Não lhe restem anos; na prática só existe a opção 2, claro. Como vivemos numa eterna piada não? Ora! Piadas são legais, mas poxa vida somos hipócritas, é somos. Porém temos salvação, já que rimos disso. Minha mãe sempre diz que rir é um santo remédio. 

O que essa ladainha estúpida e esquizofrênica quer dizer afinal? Quer dizer que podemos ser mais relativos. Podemos ampliar nossa percepção a ponto de percebermos que, muito provavelmente, nossos problemas podem ser resolvidos ou mandados para o raio que os parta (quem foi o paspalhão que disse que temos que resolver todos os problemas? Que não podemos pular umas perguntas da prova? Quem esse paspalhão acha que nós somos para saber a resposta de tudo?). E as nossas glórias são tão lindas , mas beleza sem conteúdo é um saco (ou uma Barbie). É, somos seres imperfeitos ao extremo, só que isso não é desculpa. Que tipo de hipócrita você quer ser?