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domingo, 13 de abril de 2014

Drama da vida urbana - O fracasso dos acampamentos do séc XXI- Relato exclusivo de uma autodespejada

Levantou assustada. Perdeu-se dormindo e, acordando, viu que tinha se perdido demais. Tocou os pés no chão frio, a cabeça ainda rodava como consequência desse despertar abrupto, a brisa da manhã tocou seu rosto de maneira desagradável. Caminhou cambaleante até o banheiro, com as mãos em concha, jogou água fria na face cansada. Um dose a mais de despertar. Enxugou o rosto e olhou-se no espelho.

Olhou-se.

Ele nem olhou de verdade, ele nem lhe percebeu de verdade. Não descobriu nada, não perguntou, não quis nada mais. E ela estava pronta para dar respostas ou fazer mais perguntas. Manifestou-se, mandou fazer panfletos, pintou o muro da casa dele. Ele não viu, não viu. Então ela contratou um sistema de som para uma micareta, compôs músicas sobre ele. Ele estava com fones de ouvido no volume máximo. Um dia, cansada, ela escreveu um bilhete de apenas quatro palavras, bateu em sua porta e entregou-lhe o bilhete. Ele sorriu. Ela sorriu. Então ele fechou a porta, ela montou um acampamento garantindo que estaria lá quando a porta se abrisse de novo. 

Chuvas, relâmpagos trovoadas.

Clima seco, tempestade de areia, insolação.

Ela permaneceu lá. Bravamente, lá. 

Mas um dia, bem, um dia ele abriu a porta, desceu as escadas e saiu caminhando sem olhar para trás. Nesse dia, ela desmontou a barraca e pegou o elevador mais próximo com destino ao subsolo. A barraca está no armário junto com o ânimo para acampar de novo. Pode jurar que nunca mais, jamais, acampará novamente. 

Balança a cabeça para enxergar o espelho de novo, era ela.

Prepara-se para sair, era ela. 

* Dizem que jornalistas não revelam suas fontes, pois bem, blogueiras de meia tijela também não.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Uma xícara de café forte, por favor

Nunca deixe de estar preparada para a lama. E talvez isso pareça tão sombrio quanto Augusto dos Anjos, contudo, a vida não vai falhar e você perceberá que, na verdade, a sombra era sua melhor dose de claridade. Triste, não? 

Não, primoroso.

 Forte como uma xícara venenosa do mais puro café. Eu não chamaria de deliciosa, e sim de primorosa. O café é assim, longe de poder ser chamado de apetitoso. Apetitoso, delicioso é o chocolate, café não. Café é marcante, um gole de despertar, despertar para quê? Para onde? Não sei direito. Só sei que engoli o café ainda queimando a boca, forte, me obrigou a desviar a atenção para seu gosto por contados segundos. Não sei porquê acordei, sei que dormi. Não sei o que faço agora com os olhos abertos, só sei que vejo. E não gosto de tudo que capto, mas continuo captando porque a xícara ainda está cheia, e agora o café me desafiou. E não é que não goste de ser desafiada, eu não gosto é de perder. 

Quando todos sumirem e suas palavras mais banais precisarem do gentil espaço do ouvido de alguém que não há. Quando forem monólogos os diálogos logo no primeiro ato e a plateia, outrora amiga, ruminar impaciente com sua existência antes festejada. E,só por garantia, se as previsões forem de dias nublados e empolgantes como a personificação do tédio, saiba, sim, quando tudo isso vier à tona tão ferozmente que lhe torne feroz e frágil, tão bruscamente que lhe seja perdido o compasso e que sua melhor personagem esqueça o texto, quando tudo isso lhe atingir, saiba que uma xícara de café forte estará sempre disponível para um agradável tapa na cara de sua desgraça (que não deixa de ser você mesma), o café vai dançar com você enquanto você não souber que raio de música estão cantando, e não aprovar a nova estação de rádio, embora não queira voltar para antiga. Enfim, quando a ode da mediocridade for professada, e você estiver só, tome uma xícara de café forte.

Não vai resolver nada, mas o café não vai deixar de ser café só por isso.

domingo, 14 de julho de 2013

Agradecimentos aos arbustos

1...2...

Você começa a correr, ainda não sabe direito para onde, mas corre com urgência. Outros correm também, todos meio perdidos. 

7....8....

Quem sabe atrás da terceira porta da direita. Mas já tem alguém ali. E se você for até o balcão perto da cantina? Tenho quase certeza que ali é um bom lugar...É, também já tentaram esse esconderijo. Os números vão subindo rápido, mais rápido do que você planejava aliás. E de repente, onde estão todos? Parece que todo mundo já está com seu inteligente, bem planejado e extremamente confortável esconderijo, e você aí correndo sem ter nem onde esconder essa sua cara. E eu vou lhe dizer uma coisa, aqueles números vão acabar logo, logo, criança, o Júnior vai anunciar que acabou de contar e vai começar a procurar. Adivinhe bem rápido quem vai ser a primeira pessoa a sair da brincadeira sem um esconderijo, criança? 

Pois é....

Mas...mas vai ver...você está procurando só no lugar errado. Sim, sim, eu sei que os melhores esconderijos já estão preenchidos pelas crianças mais espertas e hábeis, só que não dá mais tempo para fazer lamentações, lembra? Corra, corra, corra! E é isso que você faz. Percorre o caminho de volta. Seu coração começa a tocar uma música muito acelerada, a música vibra nos seus ouvidos. Você pula o batente para ganhar alguns segundos, o Júnior está quase acabando. Pode continuar contando, Júnior! É! Tudo faz sentido agora. Você passa por ele e segue até um arbusto, joga o corpo para frente, dobra as pernas e se encolhe atrás da planta. Enfim, um lugar para se esconder. Ar? Onde está o ar que deveria estar nos seus pulmões? Criança, foi uma corrida e tanto. Ora, mas controle essa respiração, quer que todos ouçam? E Júnior dá um berro avisando que vai começar as buscas, ele corre para o lado onde todos geralmente se escondem, o lado oposto ao que você está. Um por um, os outros vão sendo encontrados, e você ali tão perto e ironicamente tão protegida pela obviedade. É hilariante. Você quer levantar num pulo e gritar como eles foram bobos de buscar esconderijos tão sofisticados com aquele bem ali, você ri baixinho, é uma vitória pessoal. Logo você que nunca foi a criança mais rápida para pegar o balcão da cantina primeiro e, com todo o respeito, nem a mais inteligente para achar aqueles lugares improváveis. Mas conseguiu, logo você, nada especial. 

Corre e se salva. Simples assim. E os outros olham com um tanto de surpresa e outro tanto de desprezo para o seu arbusto. Na verdade, eles estão chateados por não terem pensado nisso antes. Um simpático gênio nos disse que 'o essencial é invisível aos olhos'. E vai ver por isso nós não conseguimos enxergar o caminho até lá, se serve de consolo criança, você pode tentar mais de uma vez, aliás, nós somos eternos 'cafés com leite'. Aliás, nem quando chegamos até lá, por vezes, sabemos que lá é lá. Somos também eternos mal agradecidos. Sua mãe já lhe disse para agradecer, não disse? Agradeça pelo arbusto, isso, muito bem. Às vezes os arbustos são oportunidades, às vezes são -para ser poética- sonhos, ou até, pessoas. Criança, eu acredito fielmente que cada um merece ter arbustos para se esconder, nem sempre a brincadeira parece boa, mas corra, corra e quando achar que está bom, corra mais um pouco. Você tem todas esses momentos de birra, essas remelas saindo pelos olhos e esses (malditos e angustiantes) cadarços desamarrados, mas quem não tem problemas que atire o primeiro tênis de velcro, certo? 

Criança, um esconderijo bom e seguro deve estar esperando. Corra como se disso dependesse todo o esconde-esconde.


quinta-feira, 28 de março de 2013

Um cara descolado


Ouviu o alarme às 5:58 a.m; às 06:00 a.m levantou; às 06:15 a.m já estava se arrumando; como todos os dias, às 06:35 a.m fechou a porta e foi trabalhar. Como todos os dias, conferiu o nó da gravata no vidro do carro, pôs o sinto de segurança , conferiu duas vezes se vinha algum outro carro e foi pelo mesmo caminho, o mesmo de todos os dias. Parou na vaga de sempre (ele saia cedo para poder estacionar nela), chegou pontualmente 5 minutos antes, tempo certo para chegar e se organizar com calma. Fez seu serviço. Às 12:30 p.m parou para almoçar. Sentou na mesma mesa do restaurante, pediu um “seguro” prato executivo, e comeu feliz novamente. Voltou para o trabalho na hora certa. Continuou a fazer seu serviço. Às 17:05 p.m levantou-se para ir para casa, cumprimentou o porteiro, perguntou das crianças, se despediu e conferiu o nó da gravata no vidro do carro. Pôs o sinto de segurança e conferiu duas vezes de cada lado antes de seguir. Chegando em casa deu comida ao cachorro, leu 5 páginas de seu novo livro, assistiu a novela e ligou para sua mãe, “Tem se alimentado direitinho, Rodolfo?”. “Sim, mamãe, não se preocupe”. Fez alguns agradecimentos a qualquer divindade que ouvisse. Foi dormir com uma música suave.

Acordou às 07:30 a.m; ligou para a Fê às 08:00 a.m; ligou para a Ju às 08:10 a.m; ligou para a Rê às 08:15 a.m; pôs perfume, gel no cabelo, cueca de grife, tênis bombado, conferiu o topete em três espelhos . Passou na loja do pai às 09:30 a.m, deu algumas ordens aos funcionários, pegou dinheiro, às 10:36 a.m pediu uma cerveja na praia, Fê, Ju e Rê também quiseram. Às 14:00 p.m, fazia a terceira sequência de tríceps, conferiu os bíceps no espelho da academia e já ia esquecendo de conferir o topete quando ajeitou um fio de cabelo rebelde.Às 20:00 p.m postou trechos bíblicos no facebook, e agradeceu a Deus por inbox; às 20:30 p.m anunciou que #partia para uma festa. Às 21:00 p.m chegou na festa do Brother, às 22:00 p.m já tinha bebido , quantas doses mesmo? Não importava. Às 06:30 a.m dirigia bem rapidinho que era para impressionar a  Fê, a Ju e a Rê; às 06:34 a.m riam alto. Às 06:35 a.m ele furou o sinal vermelho; ainda às 06:35 a.m bateu no carro de Rodolfo.

 Fê, Ju e Rê se arranharam, mas já marcaram a cirurgia plástica.

 Ele vai ser processado, vai pagar um advogado metido a esperto e o pai vai pagar a multa. Dentre alguns dias, ele vai estar na praia pedindo uma cerveja, talvez não mais com a Fê, a Ju ou a Rê, porque as cicatrizes estragaram um pouco o rosto delas. Vai agradecer a todos os santos atualizando o status e xingar o moleque do sinal.

 Rodolfo não vai estacionar mais na mesma vaga, não vai sentar mais na mesma mesa, não pode mais conversar com o porteiro nem  vai dar comida a seu cachorro, não vai sair da página 33 do livro novo, não vai mais ver a novela e sua mãe não vai mais perguntar como ele está, a única coisa que ela quer saber agora é, por que? 

*   *   *   

ok, isso é só um texto que eu fiz, enquanto fugia dos trabalhos da faculdade.